O Papel das Energias Renováveis na Logística: Necessidade ou Oportunidade?

A logística é um setor em constante transformação. Mas, ao contrário de outras revoluções tecnológicas, a mudança que enfrentamos agora não é opcional – é uma necessidade urgente. Durante décadas, a cadeia de abastecimento global operou à base de combustíveis fósseis, garantindo eficiência e rapidez, mas também contribuindo para elevados níveis de emissões e dependências energéticas que hoje sabemos ser insustentáveis.
A logística representa cerca de 20% do consumo global de energia, e com a explosão do comércio eletrónico, a aceleração das entregas e a exigência de maior eficiência, a procura por soluções mais sustentáveis nunca foi tão crítica. A questão não é se a logística vai mudar, mas sim quem vai liderar essa mudança.
O Transporte Como Motor da Transformação
O transporte é, sem dúvida, o setor que mais impacto tem na sustentabilidade logística. Camiões, navios e aviões continuam a depender, em grande parte, de combustíveis fósseis, mas a transição energética já começou. O crescimento da eletrificação das frotas rodoviárias está a mudar a forma como os bens circulam.
A Amazon, por exemplo, já colocou 20 mil carrinhas elétricas nas estradas e pretende atingir 100 mil até 2030. A DHL definiu como meta eletrificar 60% da sua frota de última milha até ao final da década. Estes investimentos não são apenas boas práticas ambientais – fazem sentido do ponto de vista económico. A eletrificação das frotas reduz custos operacionais e permite às empresas anteciparem-se a futuras regulamentações ambientais que inevitavelmente irão apertar.
Nos transportes marítimos, onde a mudança é mais complexa, já existem avanços significativos. A Maersk, um dos gigantes do setor, começou a operar navios movidos a metanol verde, reduzindo drasticamente as emissões da sua frota. Na aviação, os combustíveis sustentáveis estão a ser desenvolvidos e testados, com o objetivo de cortar a pegada de carbono dos voos logísticos sem comprometer a eficiência operacional.
A mudança não acontece apenas porque é necessária – acontece porque começa a fazer sentido no modelo de negócio das empresas.
Armazéns: De Consumidores a Produtores de Energia
Os centros de distribuição são responsáveis por uma grande parte do consumo energético da logística, seja na climatização, iluminação ou na operação de equipamentos como empilhadores e tapetes rolantes. Mas a lógica está a inverter-se: os armazéns não são apenas grandes consumidores de energia – estão a tornar-se produtores de energia limpa.
Empresas como a Prologis já instalaram 500 MW de capacidade solar nos seus edifícios logísticos, reduzindo a dependência da rede elétrica. A Amazon anunciou que já opera 100% das suas instalações globais com energia renovável. Estes investimentos permitem não só reduzir a pegada de carbono, mas também baixar custos operacionais e garantir maior resiliência energética.
Mas esta transição não é exclusiva das grandes multinacionais. Muitas PME’s em Portugal e na Europa já começaram a instalar painéis solares nos seus armazéns, percebendo que este passo não só reduz custos como pode tornar-se uma vantagem competitiva. Aqueles que investem hoje na sua independência energética estarão melhor preparados para um futuro em que a eletricidade pode ser um dos fatores críticos para a rentabilidade.
Última Milha: O Desafio e a Oportunidade
A última milha é um dos maiores desafios da logística moderna. Com o crescimento das compras online, o número de veículos de entrega nas cidades pode aumentar 60% até 2030, agravando os problemas de congestionamento e emissões. Mas é também nesta fase da cadeia de abastecimento que surgem algumas das soluções mais inovadoras.
Em Portugal, a Low Low está a mostrar que é possível fazer diferente. Operando a partir de um hub logístico no Porto de Lisboa, consegue garantir entregas sustentáveis em Lisboa, Cascais e Oeiras sem qualquer impacto ambiental. Através de uma frota limpa, esta empresa prova que a mudança não está apenas nas multinacionais – está a acontecer aqui, com empresas portuguesas que ousam inovar.
Além disso, soluções como bicicletas elétricas de carga e a implementação de hubs urbanos e lockers estão a ajudar a reduzir o número de deslocações desnecessárias e a otimizar as entregas. A IKEA, por exemplo, já atingiu 41% de entregas elétricas em 2024 e está a expandir esta prática para garantir que todas as entregas urbanas sejam feitas sem emissões.
Estas mudanças são um sinal claro: a sustentabilidade na última milha já não é uma utopia – é uma realidade em expansão.
Desafios e Oportunidades: Como Acelerar a Transição?
Apesar do progresso, ainda há desafios significativos. A infraestrutura de carregamento para frotas elétricas precisa de crescer, e o custo inicial de conversão das operações ainda é uma barreira para muitas empresas. Mas o custo de não mudar pode ser ainda maior.
Os consumidores e as regulamentações estão a tornar-se mais exigentes. As cidades já começam a criar zonas de emissões reduzidas, e empresas que não se adaptarem podem enfrentar restrições operacionais e custos mais elevados no futuro. A transição para energias renováveis não é apenas uma questão de sustentabilidade – é um movimento estratégico para manter a competitividade.
Além disso, o custo das energias renováveis está a cair rapidamente. Modelos como leasing de painéis solares, partilha de infraestruturas de carregamento e incentivos financeiros para a eletrificação das frotas tornam esta transição mais acessível do que nunca.
A questão que se coloca é simples: vai a logística liderar esta transformação ou ficar para trás?
A Sustentabilidade Como Diferenciador de Negócio
Olhando para o futuro, é evidente que a logística sustentável não é uma tendência passageira – é um caminho sem volta. Empresas que lideram esta mudança não estão apenas a reduzir emissões – estão a preparar-se para uma nova realidade económica, onde eficiência e responsabilidade ambiental andam de mãos dadas.
🚛☀️♻️ A logística do futuro já está a ser construída. Como é que a sua empresa está a adaptar-se a esta nova realidade?