Cargo Freight Portugal Summit: Reflexões sobre um Encontro que Molda o Futuro da Logística

A primeira edição do Cargo Freight Portugal Summit 2025, organizada pela Supply Chain Magazine, foi um verdadeiro marco para o setor dos transportes e logística em Portugal. Durante os dias 12 e 13 de março, o Meliá Ria Hotel & Spa, em Aveiro, transformou-se num ponto de encontro de referência para profissionais, especialistas e decisores, proporcionando um espaço de debate de elevadíssima qualidade sobre os desafios e as oportunidades que moldam o futuro das cadeias globais de transporte.
É impossível falar deste evento sem destacar o brilhantismo da organização, que soube criar um ambiente inspirador e repleto de conteúdos relevantes e atuais. A aposta em painéis temáticos diversificados, com intervenientes de renome e visões distintas, elevou a fasquia dos eventos do setor em Portugal. A Supply Chain Magazine voltou a demonstrar a sua capacidade de promover encontros de excelência, mantendo o rigor e a profundidade que caracterizam a sua abordagem editorial.
Além da qualidade dos conteúdos e da relevância dos temas abordados, impressionou-me também a elevação da audiência. Era evidente que o público presente não só dominava as questões em discussão como estava genuinamente interessado em aprofundar conhecimentos e partilhar experiências. A diversidade de perspetivas, desde empresas tecnológicas a operadores logísticos, passando por especialistas em sustentabilidade e académicos, garantiu um debate equilibrado e enriquecedor. Foi, sem dúvida, uma oportunidade única para refletir sobre a transformação digital, a sustentabilidade e a resiliência operacional com uma audiência de elevada competência técnica e visão estratégica.
O primeiro grande ponto que me ficou deste evento foi a forma clara como a transformação digital está a deixar de ser uma tendência para passar a ser uma exigência competitiva. Ficou claro que, embora muitas empresas já tenham dado passos significativos na digitalização das suas operações, há um desalinhamento entre a capacidade tecnológica instalada e a integração efetiva nos processos do dia a dia. Por outras palavras, temos mais tecnologia disponível do que estamos preparados para utilizar. Este desfasamento revela-se, muitas vezes, numa adoção parcial e na falta de formação adequada das equipas, resultando em ilhas de inovação que pouco contribuem para o desempenho global da cadeia de abastecimento. A verdadeira transformação passa por uma mudança cultural que coloque a tecnologia ao serviço das pessoas e não o contrário.
Além disso, ficou claro que há um longo caminho a percorrer no que toca à integração de ferramentas digitais com os sistemas já em uso. A interoperabilidade entre plataformas e a capacidade de orquestrar diferentes tecnologias para criar um fluxo de informação contínuo continuam a ser um grande desafio. Neste contexto, a colaboração com parceiros tecnológicos, bem como a aposta na capacitação dos recursos humanos, são peças fundamentais para fazer a diferença.
Outro aspeto que merece destaque é a resiliência operacional, que, apesar de ser um tema que já ganhou relevância nos últimos anos, continua a ser abordada de forma insuficiente e pouco estruturada. A gestão de riscos não pode ser um esforço reativo, mas sim um processo integrado na estratégia operacional. O evento mostrou que as empresas que melhor responderam a crises recentes foram precisamente aquelas que investiram em planeamento preditivo e em redes de parceiros diversificadas e robustas. No entanto, a maioria dos intervenientes parece estar ainda num estágio em que apenas identifica os riscos após estes se materializarem, o que leva a respostas tardias e, muitas vezes, ineficazes.
A sustentabilidade foi, naturalmente, um tópico omnipresente no evento e não poderia deixar de ser. Contudo, o que me chamou a atenção foi a forma como esta conversa está a evoluir. Já não falamos apenas de boas práticas ambientais ou da necessidade de reduzir emissões, mas sim de uma abordagem integrada que inclui a logística inversa, a economia circular e a transparência ao longo da cadeia de valor. Porém, continua a haver um fosso entre a intenção e a prática. Falamos muito sobre o que é necessário fazer, mas ainda há poucos exemplos concretos de empresas que efetivamente integraram a sustentabilidade como um pilar estratégico e não como uma resposta a pressões regulamentares ou de mercado.
Finalmente, é incontornável mencionar o tema da falta de motoristas e o impacto que esta escassez continua a ter no setor. Embora se fale cada vez mais na automatização como solução, o evento deixou claro que a digitalização dos processos não vai, por si só, resolver este problema. A valorização da profissão, melhores condições de trabalho e uma abordagem mais humana para atrair as novas gerações são, a meu ver, pontos críticos que não podem ser ignorados.
O Cargo Freight Portugal Summit 2025 foi, sem dúvida, uma oportunidade única para repensar estratégias e confrontar ideias, mas saio com a sensação de que ainda há muito trabalho pela frente. A inovação tecnológica está no centro de todas as discussões, mas não podemos esquecer que, sem um foco claro na capacitação das pessoas e na criação de culturas organizacionais abertas à mudança, a transformação continuará a ser um conceito distante e difícil de alcançar.
#CargoFreightPortugal #Logística #SupplyChain #TransformaçãoDigital #Sustentabilidade #ResiliênciaOperacional #FuturoDaLogística #Inovação #Automatização #SupplyChainMagazine